Vantagem competitiva circunstancial dos juros mais baixos e o paradoxo do papel do cooperativismo no mercado de crédito.

A entrevista concedida por Harold Espínola, chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas e de Instituições Não Bancárias (DESUC) do Banco Central do Brasil, ao MundoCoop (veja aqui) é leitura obrigatória para todos que atuam no cooperativismo financeiro e para os estudiosos do sistema financeiro nacional.

A constatação de Espínola, as taxas de juros praticados pelas cooperativas são inferiores aos da banca comercial é acompanhada de uma importante nuance: este diferencial é maior em linhas com menor concorrência (empréstimo a pessoa física sem consignação) e quase inexistente no financiamento de veículos, segmento intensamente disputado por diversos agentes financeiros.

Como tive oportunidade de destacar em palestra no CONCRED em Santa Catarina, as taxas de juros praticadas pelas cooperativas são uma vantagem competitiva circunstancial. Ela é circunstancial, porque o aumento da concorrência reduzirá paulatinamente este diferencial até que ela seja eliminada, a exemplo do que ocorre em países com forte presença do cooperativismo no mercado financeiro.

Dito de outra forma, os juros menores cobrados pelas  cooperativas contribuem para um aumento da concorrência no mercado e, por esta via, para redução das taxas de juros da banca comercial. O que já pode ser observado em várias regiões do país.

Paradoxalmente, as cooperativas de crédito contribuem para o fim de sua vantagem competitiva baseada em taxas de juros inferiores aos da concorrência.

Isto é um problema?

Não. Essa é uma grande contribuição do cooperativismo para o desenvolvimento de nosso país.

Isto pode tornar-se um problema?

Sim. Para as cooperativas que não conseguirem operar com custos compatíveis com a nova realidade de mercado.

Para o conjunto do cooperativismo financeiro, o grande desafio estratégico é a transição do atual posicionamento de mercado baseada em preço para uma estratégia competitiva de diferenciação via criação de valor compartilhado para cooperados e comunidades.

Carlos Alberto dos Santos

COSINERGIA Finanças & Empreendedorismo

3 comentários

  1. Guto Rolim em 27 de dezembro de 2018 às 14:41

    Prezado Carlos Alberto,

    Há quase 30 anos ouvi a seguinte história, contada pelo Roberto Rodrigues:
    Ele estava em visita à Alemanha, conhecendo a estrutura do cooperativismo de lá, quando um dos anfitriões o levou para conhecer uma cooperativa de crédito numa pequena cidade da Baviera. Rodrigues perguntou quais eram as taxas de empréstimo que eles praticavam. “X” %, informou o empregado da instituição.
    O anfitrião o levou, agora, para um banco comercial, do outro lado da rua. Rodrigues perguntou a mesma coisa e o funcionário respondeu “X” % – a mesma taxa.
    Perguntou então ao anfitrião por que a cooperativa cobrava a mesma taxa do banco, e o cooperativista alemão o trouxe de volta à cooperativa e pediu que levasse a questão a um dos associados que lá estavam, fazendo suas operações.
    “Porque são os bancos que praticam nossas taxas”, disse o cooperado. “Quando não havia uma cooperativa aqui, as taxas deles eram maiores”.

    A nossa questão no Brasil não é ‘matemática’, mas cultural. Quanto tempo e quanto esforço teremos que gastar até conseguir balizar as taxas de juros e de remuneração do mercado? E quanto tempo levaremos até a população entender a importância desse papel na economia financeira, a ponto de se apropriar do cooperativismo, como fez o cidadão dessa parábola?

    • Carlos Alberto dos Santos em 8 de janeiro de 2019 às 09:38

      Grato Guto Rolim pela mensagem.
      Em sala de aula, com tempo suficiente, sempre conseguimos avançar no entendimento de que as taxas praticadas são resultado da concorrência entre os diferentes players no mercado de crédito.
      As taxas “mais baixas” (aspas porque elas não são baixas, e sim mais baixas do que as taxas extremamente altas praticadas pelos agentes comerciais) refletem uma constelação de mercado oligopolizado, com a oferta de crédito concentrada em 5 agentes que não concorrem entre si através das taxas.
      Aumento da concorrência levará a uma queda paulatina das taxas de juros para o tomador final, eliminado por fim este diferencial competitivo das cooperativas. Paradoxalmente – e isto é bom – elas contribuem para isto. O “causo” que Roberto Rodrigues conta é ilustrativo da racionalidade econômica deste processo de consolidação do cooperativismo, aumento da concorrência e redução de taxas de juros. Abraço!

    • Cláudio Siqueira Junior em 9 de junho de 2019 às 10:59

      Taxa é apenas um dos atrativos do cooperativismo. Se pautarmos a abordagem utilizando apenas o atributo das taxas, não seremos competitivos. Precisamos enxergar que o cooperativismo é muito maior que isso!
      Vamos pensar na cultura e propósito das cooperativas. Vamos explorar o conceito de capitalismo consciente em detrimento do capital especulativo dos bancos.
      É simples, no ano passado (2018) 5 dos principais bancos apresentaram um lucro de aproximadamente R$ 100 bilhões. Quem ganhou com isso? Apenas os acionistas. Imaginem se esse mesmo lucro fosse das cooperativas? Teríamos milhares de associados usufruindo desse valor e movimentando a economia.
      Quero que o cooperativismo cresça e apareça!

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