Uma análise do mercado de crédito não deve partir do modelo de mercado de concorrência perfeita, cujo mecanismo de preços leva ao equilíbrio de mercado, no livre jogo entre a oferta e a demanda. A correlação entre preço e oferta (maior preço, maior oferta e vice e versa) e entre preço e demanda (menor preço, maior demanda e vice e versa) que caracterizam o “mercado de bananas” não se aplica ao mercado de crédito.

Em um artigo seminal (Credit Rationing in Markets with Imperfect Information,1981), Joseph E. Stiglitz e Andrew Weiss demonstram que a assimetria de informações impede que a variação da taxa de juros seja suficiente para o mecanismo de preço garantir o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado de crédito.

Em razão da distribuição assimétrica de informações entre as partes contratantes – o agente financeiro não conta com a mesma quantidade e qualidade de informações do demandante por crédito – e uma correlação positiva entre risco e rentabilidade dos projetos a serem financiados (alto risco/alto retorno, baixo risco/baixo retorno), como se comporta o mecanismo de preço no mercado de crédito?

Crescentes aumentos nas taxas de juros inviabilizam, paulatinamente, projetos de riscos menores e atraem projetos de maiores riscos. Esta seleção adversa resulta em aumento da inadimplência e diminuição da rentabilidade da carteira de crédito. Atingido o nível da maximização de rentabilidade da carteira, o agente financeiro passa a racionar sua oferta de crédito ao invés de aumentar as taxas de juros.

No segmento MPEs dos mercados de crédito, o problema da distribuição assimétrica de informações é ainda mais grave devido à baixa qualidade das informações oriundas de uma gestão financeira frequentemente deficiente e com alto grau de informalidade, dificultando a elaboração de scores confiáveis a um custo razoável.

O modelo de Stiglitz e Weiss é, portanto, especialmente útil para uma análise do segmento do mercado de crédito das micro e pequenas empresas (MPEs), dado que frequentemente os elevados custos das operações de crédito neste segmento implicam uma taxa de juros acima do nível que maximiza os lucros do agente financeiro. Vejamos porque isto acontece.

Para o agente financeiro, o custo da oferta de crédito pode ser definido como

Coc = fL + A + xL + tL

sendo Coc o custo da oferta de crédito; f o custo médio de oportunidade do funding; L o valor do empréstimo; A a soma dos custos operacionais da concessão, monitoramento e recuperação do empréstimo; x os custos médios do risco estimado e t os impostos que incidem sobre a operação. Importante observar que os fatores f, x e t são proporcionais ao valor emprestado (L), já o componente A representa um custo não relacionado ao valor da operação de crédito.

Da composição de custos da oferta de crédito deriva uma definição fundamental: quanto menor o valor do empréstimo, maior será, proporcionalmente, o seu custo para o agente financeiro. Portanto, a lucratividade de uma operação de crédito é ceteris paribusinversamente proporcional ao seu volume.

Frente a esta situação diversas estratégias são aplicadas pelos agentes financeiros para o segmento PME. Desde a não atuação, ou atuação parcial no segmento (definição de uma lista de atividades características deste setor que não são financiáveis), concentração em operações de capital de giro, de curto prazo e menor risco, até a prática bastante comum, eufemisticamente denominada “reciprocidade”, de compensar a baixa rentabilidade da operação, condicionando a concessão do crédito a compra de produtos mais rentáveis (aplicações financeiras, cartões de crédito, seguros, títulos de capitalização, etc.).

A concessão de crédito no segmento MPE é sempre um grande desafio para os agentes financeiros de todos os países. O enfrentamento desse desafio requer o desenvolvimento de estratégias comerciais e de fomento adequadas, superando o receituário tradicional de analises que veem o mercado de crédito como “mercado de bananas”.

Em um próximo artigo falaremos sobre assimetria de informações, risco moral e o papel das garantias na mitigação do risco e redução dos custos do acesso ao crédito pelas MPEs.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/por-que-o-mercado-de-credito-%C3%A9-diferente-do-bananas-dos-santos/

Deixe um Comentário