Os conceitos empreendedor e empreendedorismo, em suas inúmeras variações, estão associados ao economista austríaco Joseph Schumpeter autor da “A Teoria do Desenvolvimento Econômico” (primeira publicação em 1911), reconhecida como uma das obras mais importantes da ciência econômica do século XX.

Schumpeter concebe a economia como um processo dinâmico, orientado para mudanças induzidas por inovações e identifica no empresário, ao desenvolver e implementar “novas combinações dos fatores de produção”, o ator central no desenvolvimento econômico.

As “novas combinações” (posteriormente denominadas inovações) concorrem com as práticas tradicionais e as superam, induzindo a chamada “destruição criadora”, o motor da dinâmica do desenvolvimento capitalista.

A inovação possibilita ao empresário obter uma lucratividade superior à da concorrência; esta reage copiando a “nova combinação” e desencadeando uma onda de investimentos que estimula a economia e impulsiona o crescimento econômico, a prosperidade e o bem-estar social. Para recuperar a dianteira o empresário precisa continuar inovando. Na linguagem atual: empresas inovadoras tem na busca incessante por inovação o cerne de sua estratégia.

Para Schumpeter, só é empresário aquele que “… efetivamente ‘levar a cabo novas combinações e perde esse caráter… quando dedicar-se a dirigi-lo, como outras pessoas dirigem seus negócios.” (Schumpeter 1999: 56)

A quem se refere Schumpeter ao mencionar “outras pessoas”?

Ele estabelece uma tipologia com “…dois tipos de conduta que, seguindo a realidade, podemos descrever como dois tipos de indivíduos: os meros administradores e os empresários.” (Schumpeter 1999: 59)

As outras pessoas a quem ele se refere são os “meros administradores”?

Aqui podemos identificar um equívoco na tradução do “Theorie der wirtschaftlichen Entwicklung” para o português, por exemplo em J. Schumpeter: Teoria do Desenvolvimento Econômico, Coletânea Os Economistas, Editora Abril.

Os dois “tipos de conduta” identificados por Schumpeter não são, como consta na versão em português, o empresário e o administrador. O que ele diferencia são as condutas, os comportamentos do empresário (Unternehmer) e do Wirt. Ao contrário de Unternehmer(empresário) a palavra alemã Wirt, em seu significado econômico, não possui tradução para o português. Exprimir Wirt como administrador (Verwalter em alemão), além de equivocado, não faz sentido.

Para Schumpeter, o que importa de fato – e isso é fundamental para uma estratégia consistente de fomento ao empreendedorismo – são os dois tipos de conduta, não as funções que o empresário eventualmente exerça em seu estabelecimento. Como sabemos, administrador é apenas uma das muitas funções que o proprietário de um pequeno negócio pode assumir no dia a dia da empresa.

Já Wirt deve ser definido como o proprietário de empresa que se contenta em obter o lucro médio de seu segmento de negócio. Dito de outra forma: Wirt é o empresário que não se comporta como (não demonstra a conduta de) um empreendedor, no sentido schumpeteriano.

As consequências das dificuldades de tradução da influente obra de Schumpeter para o português não se limitam a uma curiosidade filológica. Acrescente-se a grande influência da literatura relacionada ao empreendedorismo de origem anglo-saxônica – o equivalente em inglês para a palavra alemã Unternehmer é entrepreneur, o que por sua vez significa empreendedor em português – e poderemos compreender a origem da larga utilização dos conceitos “empresário” e “empreendedor” como sinônimos.

Ora sugere-se que todo empresário é um empreendedor e vice-e-versa. Ora propõe-se uma hierarquia entre eles: empreendedor de sucesso é aquele que se torna empresário. Deficiências de compreensão teórica que refletem e ao mesmo tempo reforçam o senso comum, segundo o qual tudo é “empreendedorismo”.

No entanto, as evidências empíricas (na linha preconizada por Schumpeter) sugerem a predominância quantitativa do Wirt na economia, o “empresário não dinâmico” voltado primordialmente para a sobrevivência e estabilização de seu negócio.

O que não diminui, ao contrário ressalta, o papel do empreendedor schumpeteriano no processo de desenvolvimento. Sabemos que a competitividade de uma economia depende de múltiplos fatores inter-relacionados, dentre os quais assume especial papel a sua capacidade de inovação.

SCHUMPETER, Joseph A. (1982): Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982. Tradução feita a partir do texto em língua inglesa, intitulado The Theory of Economic Development (1934). Título Original: Theorie der wirtschaftlichen Entwicklung (1911). Berlin: Duncker & Humblot, 1987.

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